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>> Depoimento do Peregrino Adriano Mendes Brito
no Caminho de Santiago - Maio / junho 2009
CONSIDERAÇÕES SOBRE O CAMINHO DE SANTIAGO
DE COMPOSTELA
O
contato com as realidades do Caminho de Santiago de
Compostela é uma experiência que não
se completa com leituras, relatos e fotografias. Ela
tem que ser vivida.
A
minha experiência foi vivida entre meados de
maio e junho de 2009, quando era primavera na Europa.
Apesar
dos rumores não tive embaraços com a
imigração no ingresso na Comunidade
Econômica Européia, que se deu por Lisboa.
Cheguei
em Saint-Jean-Pied-de-Port no dia 17 de maio, pernoitei
e iniciei a caminhada no dia seguinte rumo à
Roncesvalles, trecho que os guias indicam como sendo
a primeira e uma das mais difíceis etapas.
O
desconhecido tem sempre um aspecto assustador, e naturalmente
estavam comigo todos os receios de quem iria caminhar
boa parte do trajeto sozinho, uma vez que a amiga
que viajou comigo, por circunstâncias, não
precisaria completar a distância no tempo que
eu dispunha para fazê-lo.
Vi
o espírito do caminho incorporando-se à
medida que fui direcionando a atenção
só para os compromissos da jornada.
Senti
muita proteção durante todo o período
que passei no Caminho. Nada deu errado. Nenhum dos
meus receios vingaram. Nesse moderno e simplista modelo
binário de aferir as coisas: sim/não;
certo/errado; bonito/feio; bom/ruim, eu fiquei muito
agradecido de sempre experimentar a primeira das opções
possíveis. Uns dirão que foi sorte,
outros que foi coincidência. Eu prefiro dizer
que foram bênçãos.
À
medida que os dias se consumiam e eu conquistava mais
quilômetros, fui ganhando um fortalecimento
espiritual que não dava espaço para
um ou outro flagelo que volta e meia teimava em aparecer.
Senti em muitas oportunidades que embora não
avistasse ninguém à minha frente, nem
tampouco longe de mim, eu não estava só.
Comprovei o que li em um texto que me foi dado em
uma capela por uma meiga missionária: “Ainda
que você comece o Caminho sozinho, você
o fará em companhia”.
Falando
de aspectos práticos, muitas foram as boas
informações sobre cuidados com a saúde,
sobretudo com os pés, além das que eu
já conhecia, e uma em particular me fez um
bem especial: Usar absorventes femininos por sobre
a palmilha da bota, dando aos pés um acolchoado
protetor que eles nunca haviam experimentado. Assim
suportei caminhar todos os dias, ainda que os pés
estivessem machucados.
O
tempo esteve favorável na maior parte do trajeto,
mas algumas chuvas me alcançaram. E com elas,
chegaram as rajadas de vento, o frio, a lama no caminho
e a certeza de que não haveria tempo nem sol
para secar tudo para o dia seguinte. Mas todos, desconfortos
superáveis.
A
lavagem das roupas é uma atividade diária
de quem faz o Caminho. Facilidades como máquinas
de lavar e de secar estão em alguns albergues,
em alguns lugares. Mas em muitos outros, é
preciso usar as mãos, sabão e torcer
para que sequem em um varal apertado onde nem sempre
os elementos secantes chegam com suficiência.
Mesmo assim consegui vestir roupa limpa todos os dias,
e na mochila só havia umas poucas opções
de troca.
O
cuidado quase maternal de alguns hospitaleiros, a
expressão alegre e tolerante com quem por vezes
não se expressa bem, considerando o universo
de idiomas que repetem os passos do apóstolo,
a generosidade com os debilitados, foram um bem de
importância que não se quantifica.
A
boa comida é outro aspecto de destaque para
quem peregrina. Fiz em média uma boa refeição
por dia, acompanhada com o sempre bem vindo vinho,
ou uma cerveja de qualidade, como Mahou, San Miguel
e Estrela Galícia. Os pães e os queijos
são outras iguarias.
Na
minha percepção, a distância que
separa o início do término do Caminho
Francês, rota que escolhi, algo superior a 750
Km, não é o maior obstáculo para
quem se lança nessa empreitada, porque a grande
distância é vencida aos pedaços,
cada dia com sua cota. As dificuldades maiores são
o relevo acidentado e o terreno muito pedregoso, prato
cheio para detonar os pés, inclusive os mais
bem condicionados, que no mais das vezes não
suportam, sem danos, os rigores das adversidades que
não são poucas. Tive a sensação,
na maior parte do tempo, que estava sempre subindo
ou descendo, fazendo grande esforço para a
mochila não me imobilizar nem me fazer rolar
monte abaixo.
As
setas amarelas e os marcos em pequenas colunas, indicando
por onde seguir, estão sempre por lá
a guiar os andarilhos.
Os
albergues e as fontes com água fresca, são
sempre muito esperados, muito desejados. Encontrá-los
no final do dia ou quando a sede e o cansaço
se manifestavam, era uma alegria.
Pessoas
gentis eu encontrei ao longo do Caminho, e elas não
se demoravam em ajudar, orientar e até me acompanhar
a um lugar onde gostaria de ir.
Como
são próprios os cumprimentos, os olhares
e a maneira como se relacionam os peregrinos! É
uma confraria que todos os dias se forma e se desfaz.
A chance de caminhar dias a fio comigo mesmo, com
olhos para o que estava em mim e ao meu redor, com
ouvidos para sons que raramente ouço, vivendo
assim, um instante de cada vez, foi uma terapia sã
para os desencontros que não acham alinho e
que me afastam de mim.
Aos
que me perguntam se eu identifiquei alguma semelhança
entre o Caminho e a Vida, considerando que em ambos
há coisas fáceis e coisas difíceis,
coisas alegres e outras nem tanto, encontros e desencontros,
eu digo que sim. Eu vi todas as semelhanças
porque o que existe entre o Caminho e a Vida é
a Verdade.
JESUS
NÃO É O CAMINHO, A VERDADE E A VIDA?
Faça
você também o seu Caminho.
Adriano
Mendes Brito
- Rotina: Despertar
por volta das 5:30 ou 6:00 com o barulho dos peregrinos
no albergue, um zíper que se abre, um velcro
que se manifesta; guardar o saco de dormir em sua
minúscula bolsa ainda meio no escuro; aguardar
a fila no banheiro para a higiene matinal; últimas
providências com a mochila; calçar as
botas; comer alguma coisa guardada ou comprada no
dia anterior; iniciar a caminhada por volta das 6:30,
indo até o próximo destino (não
costumava fazer paradas para descanso). Chegando ao
destino do dia, esperar que albergue abra; carimbar
a credencial; alojar-se, tomar banho, trocar de roupa,
cuidar dos pés e providenciar a lavagem da
roupa suja; conversas rápidas com companheiros;
almoçar; consultar as planilhas para as estratégias
do dia seguinte.
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